Prevenção de futuras pandemias
O ano 2020 começou com a propagação de incêndios florestais na Austrália e continuou com uma crise da saúde devastadora. As repercussões de práticas e atividades não sustentáveis estão se tornando cada vez mais evidentes; ao mesmo tempo, cidadãos, consumidores e produtores de todo o mundo estão gradualmente se conscientizando da necessidade de preservar os recursos naturais que estão na base de nossa saúde e economia.
As mudanças climáticas e a Covid-19 mostraram como nossas economias e sociedades estão interconectadas: uma resposta coordenada em nível internacional é, portanto, necessária para garantir um futuro resiliente e sustentável.
Vamos tentar, então, dar uma olhada no que aconteceu este ano.
Nos primeiros meses de 2020, a Covid-19 se espalhou pelo mundo, perturbando a sociedade e a economia. À medida que os governos continuem a lidar com as inúmeras dificuldades, trazidas pela pandemia, existem diferentes opiniões sobre a origem do coronavírus e as medidas a serem tomadas para evitar futuras epidemias.
Até o momento, não há evidências científicas que comprovem a origem exata do Covid-19, embora várias pesquisas pareçam sugerir que se trata de uma doença zoonótica. Entre as propostas de prevenção da propagação de novos vírus, transmitidos aos humanos por animais, foi apresentada a de impor uma proibição internacional ao comércio de animais selváticos. No entanto, esta medida pode ter graves repercussões nas comunidades locais e junto aos povos indígenas.
A ciência ainda não é capaz de explicar o processo exato pelo qual Covid-19 foi transmitido aos humanos; no entanto, existem alguns fatos que podem esclarecer as origens do vírus.
Primeiro, a Covid-19 é uma doença potencialmente zoonótica, de acordo com pesquisadores das universidades de Zhengzhou e Wuhan. Os resultados da pesquisa sugerem que o vírus foi, originalmente, transmitido aos humanos por morcegos, provavelmente passando, inicialmente, por uma ou mais espécies animais. Outras fontes confirmam a mesma hipótese. O que sabemos, com certeza, é que 70% das doenças que surgiram nos últimos anos tiveram origem na natureza. A Covid-19 parece ter as características desse percentual.
A crescente exploração dos recursos naturais, o desmatamento e o comércio da fauna silvestre contribuem para a disseminação dos vírus zoonóticos, por meio de dois mecanismos principais: por um lado, o homem entra em contato, cada vez mais, com um número exponencial de microrganismos, devido ao uso extrativo, e não por causa da biodiversidade; por outro lado, a deterioração de áreas naturais compromete os serviços regulatórios dos ecossistemas. Porém, a correlação entre perda de biodiversidade e aumento de doenças infecciosas, embora aceita cientificamente, ainda é difícil de quantificar e é determinada por dinâmicas complexas que, dependendo do caso, podem levar a diferentes conclusões. À luz dessas lacunas, mais pesquisas são necessárias, com urgência, para entender melhor essa importante relação.
A Covid-19, provavelmente, não será a última doença infecciosa a se espalhar em escala global. Para responder a futuras emergências, a comunidade internacional está se mobilizando para identificar opções que previnam futuras pandemias. Entre as várias soluções, foi proposta a possibilidade de proibir o comércio de animais selvagens. Embora a última possa parecer uma solução lógica, na verdade envolve vários problemas. Tal ação poderia, de fato, ter repercussões negativas nas populações indígenas e nas comunidades locais, para as quais o comércio de produtos da caça é uma importante fonte de renda e de desenvolvimento econômico e social. Além disso, a proibição levaria a um aumento acentuado do comércio ilegal, que já é uma causa preocupante de perda da biodiversidade.
Entre as medidas que podem ser consideradas estão a adoção de uma abordagem “one health” (uma saúde), que envolve a integração de conhecimentos médicos, veterinários e ambientais nos processos de tomada de decisão, melhor regulamentação e monitoramento do sistema alimentar e a implementação de medidas de biossegurança mais rigorosas.
Nos próximos meses, existem várias oportunidades de apresentação de propostas de políticas, que podem fornecer uma resposta robusta e coerente ao surgimento de futuras epidemias. As negociações para as metas de biodiversidade global, de 2020-2030, dentro da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica, oferecem a primeira oportunidade importante. Alguns governos já detalharam, então, várias opções de abordagem, mais sistemáticas, à relação entre a saúde humana e o meio ambiente.
